quinta-feira, 5 de julho de 2012

AS FILHAS QUE O XINGU ESQUECEU


       O recente filme Xingu, do diretor Cao Hamburger, trouxe às telas  a história dos irmãos Villas Boas, famosos sertanistas que contribuíram muito para o trabalho junto aos indígenas brasileiros e para a criação do Parque Nacional do Xingu. Aproveitando o momento, a revista Claudia trouxe aos seus leitores a história da filha que um dos citados irmãos teve com uma índia. E a reportagem me remeteu a uma outra índia do Xingu  que teve um romance com o sertanista uruguaianense Ayres da Cunha.
     Certamente muitos já ouviram falar da célebre Expedição Roncador-Xingu, que  foi uma parte do processo de interiorizacão do Brasil, a Marcha para o Oeste, criada em 1943 pelo governo de Getúlio Vargas. Os irmãos Vilas-Boas (Cláudio, Orlando e Leonardo) se integraram a ela e passaram cerca de trinta e cinco anos no Brasil Central e contribuíram de maneira expressiva para o conhecimento da região e para a preservação do local. Catalogaram cerca de cinco mil indígenas e várias tribos. Criaram algumas cidades como postos de base na região, como a cidade de Nova Xavantina. Criaram também o Parque Indígena do Xingu. A chefia dos irmãos mudou o caráter da Marcha para o Oeste, que tinha tudo para ser uma expedição violenta, mas se tornou uma expedição de contato baseado no ideal do Marechal Cândido Rondon: "Morrer se preciso, matar nunca".
        Mas o que muita gente não sabe ou não lembra é de um drama familiar que sucedeu aos Villas Boas quando um dos três irmãos (Leonardo, o mais impulsivo, destemido e teimoso) apaixonou-se por uma índia camaiurá , chamada Mavirá, que era uma das esposas do chefe da tribo, Kutumapy. Leonardo tomou-a do chefe, levou-a para viver com ele e pediu autorização ao Serviço de Proteção ao Índio e à Fundação Brasil Central para casar-se com ela. O pedido foi negado, pois os índios eram considerados inimpuitáveis aos olhos da legislação e não poderiam casar-se perante a lei. Além disso, o fato poderia abrir um precedente para os mateiros e peões das expedições quererem casar-se com índias.. O problema agravou-se com a indignação dos índios perante o roubo de uma das esposas do chefe. E Leonardo, preocupado com a segurança de Mavirá, fugiu com ela de barco pelo rio Culuene, ajudado pelos irmãos. 
    Tempos depois, tendo os índios desistido de vingar-se, voltaram para a aldeia, estando Mavirá grávida. Nasceu uma menina, registrada como filha de Leonardo e Mavirá, a qual recebeu o nome de Maialu. Entretanto, Leonardo  tinha medo de que os índios pudessem fazer alguma coisa contra a menina, pois o infanticídio era comum entre os camaiurás, principalmente se a criança tinha algum defeito físico ou não tinha um pai oficial. Além disso, os filhos de brancos com índias eram raros e mal vistos nas tribos. Assim, quando a menina estava com 10 meses, Leonardo encarregou um major da expedição de roubar a menina de Mavirá e levá-la de avião para a família dele em São Paulo.
    Assim, Maialu foi criada pela tia Lourdes, irmã dos Villas Boas. "Ela foi a minha mãe verdadeira. Cresci como filha dela e nunca mais retomei ao Xingu. Mas sempre foi uma  situação tranquila. Minha tia me amou muito”, afirmou  Maialu em entrevista exclusiva a CLAUDIA. “Meus  tios (Orlando e Cláudio) sempre disseram que me afastaram da minha mãe biológica para minha segurança.” Aos 5 anos, a tia Lourdes lhe contou a verdade .  "Ela disse que minha mãe era uma índia do Xingu e que meu pai tinha gostado muito dela, mas  que não puderam ficar juntos. Apenas isso; eu era pequena para uma conversa mais profunda." Desde que tirara Maialu da mãe, Leonardo manteve-se afastado dos camaiurás. Receoso de que todo o trabalho  caísse por terra com a repercussão negativa, Orlando o enviou para trabalhar com os índio xicrins , no Pará, bem longe das confusões. Mas sempre que podia vinha a São Paulo para ver Maialu. Em 1961, entretanto, Leonardo morreu de complicações cardíacas, aos 43 anos. Ele sofria de febre reumática, consequência da vida difícil nos sertões. Após uma cirurgia malsucedida, uma calcificação acabou desencadeando um infarto fulminante. "Ele era difícil, mas comigo foi muito carinhoso e presente," diz Maialu.
    Os Villas Boas sempre trataram com discrição da história de Maialu. "Não era um segredo. Tenho orgulho de saber que temos esse laço direto com o Xingu. Meu pai, porém, toda a vida tentou protegê-Ia de qualquer exposição indevida", conta Noel Villas Boas, filho de Orlando e guardião da história da família.   "‘Sinto que a minha história era um tabu. Acho que fizeram tudo isso para proteger minha mãe Lourdes. Eu também não fui além nas perguntas porque não queria que pensasse que eu não a considerava boa mãe," fala Maialu. 
     Mas ter crescido em São Paulo não afastou totalmente Maialu da tribo camaiurá. "Os índios vinham para São Paulo e ficavam na casa da minha mãe.” Nessa época, ela teve contato com alguns familiares indígenas, como o pai adotivo de Mavirá, o cacique Mariká. "Eu não falava tupi muito bem, sabia apenas umas canções que meus tios tinham me ensinado” Mas eles insistiam em falar comigo no idioma camaiurá," conta. "De algum modo, me sentia parte deles.'".
        Mavirá, a mãe de Maialu, ainda é viva. Ela fugiu da aldeia e foi viver com um índio carajá, o cacique Maluaré, morando na região da Ilha do Bananal, na divisa de Mato Grosso e Tocantins. Hoje, aos 75 anos, Mavirá parece te reconquistado o respeito entre os camaiurá. Retoma todos os anos para a aldeia onde nasceu para visitar a irmã. Continua bonita, é alta, altiva e se impõe.
     Maialu nunca mais encontrou a mãe biológica. Foi no enterro de Orlando, há nove anos, que, pela primeira vez na vida adulta, teve notícias dela. Soube que estava viva e viu sua imagem. Uma meia-irmã índia, filha de Mavirá com o cacique carajá, veio a São Paulo para a ocasião e trouxe uma fotografia
     Atualmente, Maialu dedica-se à família que  formou. Casada desde os 26 anos com João Francisco Menella, um colega que conheceu na faculdade de matemática, tem duas filhas, a socióloga Ana, 32 anos, e a professora de português Giovanna, 29, que ainda mora com os pais em uma casa no bairro do Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo. Hoje, Maialu está aposentada por causa de uma tendinite no ombro. 
     Para Carmen Junqueira, a história de Maialu é um exemplo do impacto da política na vida dos índios, sobretudo das mulheres. "Essa trama teve um pano de fundo político. Todos os personagens atuantes foram os homens, que decidiram o destino delas sem consultá-las. No fim, Mavirá e Maialu acabaram separadas por toda uma vida.”  A tristeza surgiu nos olhos de Maialu apenas uma vez durante a conversa com CLAUDIA, que ela encerrou com uma confissão: "Sempre tive a sensação de que, se meu pai não tivesse morrido tão cedo, muita coisa  teria sido diferente. Sentia que ele estava esperando eu crescer para falar sobre minha mãe.”
     Outro caso parecido com esse, mas com final mais triste foi o da índia Diacuí, retirada do Xingu por um sertanista, para uma breve felicidade, cujo fim prematuro e trágico comoveu a todos. O sertanista chamava-se Ayres da Cunha, homem branco, gaúcho natural de Uruguaiana, benquisto na tribo de Diacuí, os kalapalos.
     Fascinado pela beleza da índia, Ayres propôs-lhe que viessem para o Rio de Janeiro, onde se casariam. Consultado, o pai de Diacuí consentiu, resolvendo acompanhar o casal à cidade grande. Houve dificuldades burocráticas, pois a maioria se indagava se era correto a um civilizado desposar uma “selvagem”, no regime em que o Código Civil mantém nossos silvícolas.
   Superados os entraves, graças ao prestígio da então poderosa cadeia de Jornais e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, que encampou a festa, dela tirando o maior proveito publicitário, realizou-se o casamento, que encheu muitas páginas da imprensa, não só nacional como internacional.
    Diacuí e Ayres da Cunha voltaram para a tribo dispostos a viver mais tranquilos. Pelo menos era isso que garantia o sertanista. Foi  então que Diacuí ficou grávida. Mas infelizmente não chegou a ver o fruto do seu amor, pois morreu  após o  parto.
    Passaram-se os anos e, quando andava profissionalmente pelo Rio Grande do Sul, fazendo uma série de reportagens, acompanhado pelo fotógrafo Antonio Ronek, o jornalista Mário de Moraes soube, em  Uruguaiana, que a filha de Diacuí, de quem ninguém tinha notícia, encontrava-se naquela cidade. Investigaram  e era verdade. Ninguém, até então, sabia do seu paradeiro,pois, depois da morte de Diacuí, Ayres levou a filha para local ignorado.
      A menina nada sabia sobre sua mãe. Para ela, a vovó Honorina, mãe do sertanista Ayres, é que era a sua “mãezinha”.  Quando o jornalista  descobriu a filha de Diacuí, trazendo o assunto novamente para a mídia, ela vivia na casa de um tio, Arnóbio, irmão solteiro de Ayres. Ninguém desejava perturbar a sua imensa alegria de viver, que herdara da índia Diacuí. Seu sorriso, cheio de inocência, era o mesmo sorriso da mãe que não a conhecera.
    Isto aconteceu em 1958. Hoje, se viva for, a filha de Diacuí estará com 53 anos. Possivelmente casada e mãe de alguns filhos. 


6 comentários:

  1. É uma historia fascinante,tem que divulgar mais estas tenho certeza que poucas pessoas conhecem estas maravilhas do nossos antepassados bravos desbravadores.
    Meus parabéns as pessoas que mantem viva as informações aqui postadas.

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  2. Boa tarde Iara, sou professora no Estado do Tocantins e esse mês passei para meus alunos o filme Xingu. Por isso,achei muito interessante essa história verdadeira publicada por você,mas no filme há outra história que não fica bem clara. Então responda-me se puder, Cláudio Villas Boas também teve filho com uma índia?
    Um abraço, parabéns pelo blog.
    Marcilene

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    1. Não encontrei nada referente a filhos de outro dos irmãos Vilas Boas com índias. Apenas esta de Leonardo.Obrigada por curtir o blog.

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  3. Eu estudei com a Maialú no Colégio Nossa Senhora Aparecida b sou professora de Matemática aposentada e trabalhei tb com os índios de São Paulo por influência da história da Maialu.

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  4. Fantástico o nosso equivalente a conquista do oeste americano só que com mais dignidade.

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  5. Fantástico o nosso equivalente a conquista do oeste americano só que com mais dignidade.

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